O Xico Sá é um escritor cearense quarentão que só perde pro Chico Buarque no sentido do entender as mulheres. Já tinha virado um dos meus escritores preferidos apenas pelo conteúdo de seu blog, no qual soltou pensamentos célebres como “homem que é homem tem que comer mulher feia, porque mulher bonita até veado comeâ€, “amor, se é amor, não se acaba de forma civilizadaâ€, “homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celuliteâ€, “homem que é homem chora em público, aos soluços, seja qual for o motivo, chora pela circunstância e chora pelo conjunto da obra, porque o choro de um homem nunca é um choro isolado, homem chora a dureza represada de ser homem, e triste dos homens que não choram nunca”, “a inveja da humanidade é desse pequeno chuveiro que faz misérias†e etc. Ele tem nove livros publicados, e escreve pra vários jornais, tendo inclusive uma coluna sobre futebol na Folha de São Paulo.
Um livro dele que li e indico é o “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea – A Educação Sentimental do Homemâ€. Nele, Xico analisa os mundos dos dois sexos, e sua relação, em especial sob a perspectiva masculina. Fala sobre detalhes cotidianos da vida a dois, orgasmos, culinária, chifre, bunda, dedadas, viadagem, hábitos esquecidos, usando uma linguagem cheia de referências e abusando do vocabulário nordestino, sempre com um gosto de moda antiga. Engraçado, romântico, sincero, sexual, o livro resume bem o estilo do Xico Sá. O cara manja tanto das mulheres, sabe tão bem o que a gente quer, tem um ar do homem que ele mesmo diz ser o que toda mulher busca: uma mistura de lenhador e homem sensÃvel, que acaba se tornando irresistÃvel. Me liga, Xico!

Pra vocês poderem dar uma avaliada, vou mostrar dois textos de autoria dele:
FARELOS DO DISCURSO DOCE E AMOROSO
Não, baby, até o cara que acabou de cortar o dedo no balcão do bar aqui da Augusta, sabe, não sou um cara violento, até o cavaleiro errante que passou no seu pangaré urbano e branco, sabe, não dou tiros para cima quando estou ao teu lado, existe apenas algo patético na minha loucura que pretendo trocar pelos teus lindos olhos e que o troco deixes de inventário para o nosso amor louco, não, não quero sabotar o ensaio de amor, quero apenas cantar refrões sofridos no show do Wander, quero ser um cara legal, te ver trocando de roupas, agoniada com a escolha da blusa, embora nos membros inferiores te baste um jeans com bom caimento e umas havaianas, além da dúvida meteorológica, porque ainda não sabes que te esfrio e te esquento conforme diz a moça do tempo, quero ser um cara legal, esquisito, religioso, que te mira o tempo inteiro e tem a ciência de que não há sequer meio defeito em cima do teu corpo que tanto amo, não, corazón babilônico, embora meu olhar para ti seja um olhar de criminoso, vim apenas fazer um alegre piquenique em tua vida e deixar farelos do nosso doce na grama para a alegria das formigas.
LIBELO CONTRA A EXTINÇÃO DAS DENTUCINHAS
Denúncia urgente: estão acabando com as dentuncinhas. Sim, não é de hoje, faz tempo, mas agora beiramos realmente a extinção da espécie. Essa moda de encher de arames os dentes das moças. Essa modinha de desentortar os lindos dentinhos das raparigas em flor ainda cheirando a leite. Sim, os mancebos também são vÃtimas da ortodentia moderna, mas os moços, pobres moços, que se virem, que se defendam. Este panfleto lÃrico e sentimental se preocupa tão-somente com as meninas, como um tardio e lesado Lewis Carroll sertanejo.
No inÃcio do modismo, era mania apenas dos mais aquinhoados; depois alastrou-se de vez, como as cirurgias plásticas. Estão acabando com o charme das dentucinhas. Toda sala de aula tinha sua dentucinha, toda repartição, toda rua, todo bairro, todo clube, todo cabaré, toda casa de tolerância que se prezasse…
Já já eliminam de vez o charme das estrias, e todas as mulheres ficam iguais, bundas iguais, peitos do mesmo tamanho, lábios de branquinhas com recheios artificiais para imitar a lindeza da mestiçagem… Reparem os cabelos, por exemplo, onde andam os caracóis, os cachos, os black-powers? Está tudo dominado, tudo esticado, a chapinha, modinha que nasceu em pleno apagão da energia elétrica, veio para ficar de vez, para sempre, fudeus. Já já escrevem na bandeira nacional: ordem e escova progressiva!
Mas o que está em jogo agora, camaradas, é o fim das dentucinhas. Uma lástima, uma tragédia dos nossos dias. Vocês lembram como eram especiais os beijos das dentucinhas? E os dengos orais das dentucinhas? Céus, o nirvana com direito a uma sinfonia de Iggy Pop com Goran Bregovic!
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Massa, né? Vale a pena dar uma fuçada no blog dele, há mais dessas coisas que você acharia que ninguém conseguiria pôr em palavras.



